Ontem foi dia de Palco Aberto aqui na minha cidade, nos encontramos e abrimos o palco para apresentações que derem e vierem a acontecer, o Desenho nos surpreendeu com o seguinte poema, tenho certeza que o mesmo tocou na alma de cada artista lá presente, gostaria de mantê-lo registrado:
Vivemos no contra
É... No contra
Contra a física e suas leis
Afinal podemos não ligar
Mais que a gravidade existe, existe
Contra as expectativas de nossos pais
Ou você conhece algum pai que adorou ver seu filho trocar
Beca, capelo e canudo por
Nariz vermelho chapéu coco e claves
Contra o que a sociedade julga profissão
Não me lembro da existência de concurso publico pra animador de via urbana
Contra todos os padrões acadêmicos
Mesmo por que, apesar da sua matemática perfeita e complexa
Site swap não faz parte da grade de matérias de nenhuma escola
Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai... viajando
Carregamos em nossas costas mochilas
Pesadas, sujas, suadas e surradas
Contendo nada mais que belas histórias e nossos brinquedos
Brinquedos que são nossa diversão, nosso meio, nossa defesa, nosso ganha pão, nossa identidade e por que não dizer nossas vidas
Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai... Buscando
Contrariamos até mesmo artistas
Enquanto muitos sonham com
Teatros renomados com imensas platéias pagantes
Nós vamos a qualquer beco, rua ou praça e convidamos a platéia a vir de bom grado
Muitos querem um palco de madeira com cortinas vermelhas e holofotes gigantes
Nós nos satisfazemos com o asfalto preto e suas faixas brancas
Com a iluminação de postes, faróis e de nossas próprias tochas
Não cobramos entradas
Mais agradecemos se alguém contribui na saída
E enquanto todos andam no verde
É no vermelho que nosso mundo gira
Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai...contrariando
Vivemos contra a tradição de nossa própria pátria
5.3.1, 4.4.1 ou 4x2x não são formações táticas de times de futebol
Arte aqui é bola no pé
E não estou falando de quick upo ou futbag
Nossa arte não passa em jornais ou revistas ou tem espaço no horário nobre da TV
Não teríamos audiência
Só apareceríamos na mídia televisiva de três formas
Num daqueles telejornais sensacionalistas
Comparando-nos ou fazendo de estatísticas
Dizendo que nossas vidas são frutos de uma sociedade doente e desigual
Que não tivemos opção, ou simplesmente estamos nessa por condicionamento social
Aparecemos também naqueles famosos programas domingueiros
Que criam competições populares, dizendo estar dando espaço para que mostremos nossa arte
Daí nos dão menos de um minuto pra fazê-lo
E ainda nos humilham em rede nacional
Julgando de maior dificuldade ou valor artístico uma criança carente por que ela sabe cantar o hino nacional
A terceira forma, não é muito comum, mas acho que é a mais fácil
Se você for, mulher, loira e gostosa e mandar benzasso com três ou mais bolas de pompoarismo
Tenho certeza de que o pânico na TV, os vídeos incríveis ou algum programa do tipo, vai adorar te-la na equipe
Claro que se você se encaixa nesses padrões meu telefone é...
Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai ... sobrivivendo
Vivemos contra as condições climáticas
Afinal chuva e malabares não combinam
Quem conhece Sampa sabe exatamente do que eu estou falando
Vivemos na insegurança, não temos renda
Não temos a certeza de que no fim do mês o salário vai estar lá
Não temos direto a férias ou décimo terceiro salário
Não temos seguro desemprego ou convenio médico
Apesar de dependemos de nossos corpos pra trabalhar
E muitos de nós são obrigados muitas vezes a vender o almoço pra comprar o jantar
E isso nos faz parar e pensar se vale a pena
Todos os dias vemos e ouvimos coisas inacreditáveis até mesmo inadmissíveis
Recebemos elogios que nos motivam
Mas também criticas que nos destroem
E chega ser engraçado tentar contar quantas vezes nos mandam ir trabalhar todos os dias
Mais enfrentamos tudo isso de peito aberto, e ainda pedimos mais
Mesmo com as fechadas de vidro
Mesmo com os olhares de desaprovação
Mesmo com todos os insultos
Muitas vezes mesmo contra nós mesmos
Pedimos mais...
A rua é pra poucos...
Ela não é boazinha ou compreensiva
Nem vai sentir se te jogar pra baixo
Sentimentos temos nós... ela não
Ela só faz sentir!
Mais do que nunca sei do que estou falando, não queria saber , mas não escreveria se não soubesse
Mas pedimos mais...
Por que nada paga a liberdade e o amor que temos pela nossa arte
Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai
Não temos o apoio ou patrocínio de ninguém
Mais somos uma raça unida
E estamos por ai...
Crescendo, nos multiplicando
Nos ajudando em cada encontro em cada convenção, em cada carnaval...
Estamos por ai... Contrariando
Temos vários nomes
Vagabundos... hippie jugglers...moleques do farol... Meninos dos pãozinho... depreciadores da propria arte..andarilhos...viajões... Bichos grilo... Micróbios... loucos
Eu prefiro ser chamado
Artista de rua