quarta-feira, 31 de março de 2010


Palavras têm poder.

Ouvimos e escrevemos tantas palavras.
O valor real delas quem faz somos nós, devemos usar toda e qualquer palavra com sabedoria.
Nem por isso devemos nos poupar de falar, pelo contrário, tudo aquilo que nos importa devemos falar.
Hoje me escreveram algo muito agradável e gentil:

"Agradecido eternamente por acordar cedo na convenção e, saindo da barraca, me deparar com você tocando tua gostosa sanfona mágica..."


Vamos ser mais gentis uns com os outros, mas só com palavras verdadeiras.
E quando for pra dar um puxão de orelha, dê sim, é só saber falar.

Nem sei se alguém lê meu blog, mas pra mim tá ótimo postar aqui rs.

Um abraço.

Poema escrito por Desenho, malabarista artista de rua.

Ontem foi dia de Palco Aberto aqui na minha cidade, nos encontramos e abrimos o palco para apresentações que derem e vierem a acontecer, o Desenho nos surpreendeu com o seguinte poema, tenho certeza que o mesmo tocou na alma de cada artista lá presente, gostaria de mantê-lo registrado:


Vivemos no contra
É... No contra

Contra a física e suas leis
Afinal podemos não ligar
Mais que a gravidade existe, existe
Contra as expectativas de nossos pais
Ou você conhece algum pai que adorou ver seu filho trocar
Beca, capelo e canudo por
Nariz vermelho chapéu coco e claves
Contra o que a sociedade julga profissão
Não me lembro da existência de concurso publico pra animador de via urbana
Contra todos os padrões acadêmicos
Mesmo por que, apesar da sua matemática perfeita e complexa
Site swap não faz parte da grade de matérias de nenhuma escola

Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai... viajando
Carregamos em nossas costas mochilas
Pesadas, sujas, suadas e surradas
Contendo nada mais que belas histórias e nossos brinquedos
Brinquedos que são nossa diversão, nosso meio, nossa defesa, nosso ganha pão, nossa identidade e por que não dizer nossas vidas

Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai... Buscando
Contrariamos até mesmo artistas
Enquanto muitos sonham com
Teatros renomados com imensas platéias pagantes
Nós vamos a qualquer beco, rua ou praça e convidamos a platéia a vir de bom grado
Muitos querem um palco de madeira com cortinas vermelhas e holofotes gigantes
Nós nos satisfazemos com o asfalto preto e suas faixas brancas
Com a iluminação de postes, faróis e de nossas próprias tochas
Não cobramos entradas
Mais agradecemos se alguém contribui na saída
E enquanto todos andam no verde
É no vermelho que nosso mundo gira

Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai...contrariando
Vivemos contra a tradição de nossa própria pátria
5.3.1, 4.4.1 ou 4x2x não são formações táticas de times de futebol
Arte aqui é bola no pé
E não estou falando de quick upo ou futbag
Nossa arte não passa em jornais ou revistas ou tem espaço no horário nobre da TV
Não teríamos audiência
Só apareceríamos na mídia televisiva de três formas
Num daqueles telejornais sensacionalistas
Comparando-nos ou fazendo de estatísticas
Dizendo que nossas vidas são frutos de uma sociedade doente e desigual
Que não tivemos opção, ou simplesmente estamos nessa por condicionamento social

Aparecemos também naqueles famosos programas domingueiros
Que criam competições populares, dizendo estar dando espaço para que mostremos nossa arte
Daí nos dão menos de um minuto pra fazê-lo
E ainda nos humilham em rede nacional
Julgando de maior dificuldade ou valor artístico uma criança carente por que ela sabe cantar o hino nacional

A terceira forma, não é muito comum, mas acho que é a mais fácil
Se você for, mulher, loira e gostosa e mandar benzasso com três ou mais bolas de pompoarismo
Tenho certeza de que o pânico na TV, os vídeos incríveis ou algum programa do tipo, vai adorar te-la na equipe
Claro que se você se encaixa nesses padrões meu telefone é...
Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai ... sobrivivendo
Vivemos contra as condições climáticas
Afinal chuva e malabares não combinam
Quem conhece Sampa sabe exatamente do que eu estou falando
Vivemos na insegurança, não temos renda
Não temos a certeza de que no fim do mês o salário vai estar lá
Não temos direto a férias ou décimo terceiro salário
Não temos seguro desemprego ou convenio médico
Apesar de dependemos de nossos corpos pra trabalhar
E muitos de nós são obrigados muitas vezes a vender o almoço pra comprar o jantar
E isso nos faz parar e pensar se vale a pena
Todos os dias vemos e ouvimos coisas inacreditáveis até mesmo inadmissíveis
Recebemos elogios que nos motivam
Mas também criticas que nos destroem
E chega ser engraçado tentar contar quantas vezes nos mandam ir trabalhar todos os dias
Mais enfrentamos tudo isso de peito aberto, e ainda pedimos mais
Mesmo com as fechadas de vidro
Mesmo com os olhares de desaprovação
Mesmo com todos os insultos
Muitas vezes mesmo contra nós mesmos
Pedimos mais...
A rua é pra poucos...
Ela não é boazinha ou compreensiva
Nem vai sentir se te jogar pra baixo
Sentimentos temos nós... ela não
Ela só faz sentir!
Mais do que nunca sei do que estou falando, não queria saber , mas não escreveria se não soubesse
Mas pedimos mais...
Por que nada paga a liberdade e o amor que temos pela nossa arte

Sim! Vivemos no contra
E vivemos por ai
Não temos o apoio ou patrocínio de ninguém
Mais somos uma raça unida
E estamos por ai...
Crescendo, nos multiplicando
Nos ajudando em cada encontro em cada convenção, em cada carnaval...
Estamos por ai... Contrariando
Temos vários nomes
Vagabundos... hippie jugglers...moleques do farol... Meninos dos pãozinho... depreciadores da propria arte..andarilhos...viajões... Bichos grilo... Micróbios... loucos
Eu prefiro ser chamado
Artista de rua

domingo, 28 de março de 2010

Para começar com pé direito...




Acreditem, pretendo ser objetiva na minha história, não está nos meus planos escrever posts tão extensos, tanto porque dizem que brasileiro tem preguiça de ler, mas para iniciar este blog, quero deixar o mais claro possível meu objetivo. Pra isso preciso contar a minha história.

Há alguns anos já que penso em criar um blog.
Porém aprendi que qualquer criação que o homem faça, parte, a princípio, de sua disposição. Até o momento que antecede a este não senti uma disposição verdadeira para iniciar.

Inicialmente meu propósito com este blog é organizar-me em minhas idéias. Quero que este seja um diário aberto, para que eu possa refletir verbalmente e, quem sabe, transmitir algum aprendizado.

Minha vida passa agora por uma nova fase de construção. Desde muito menina tenho fascinação por artes, principalmente as que partem das cênicas, esta arte complementa muitas outras como as artes circenses ou a dança.

Mesmo ciente desta paixão, sempre tive fixo em minha mente que ser artista não era o caminho certo, que era muito inviável viver de arte. Lutei muito contra esta afinidade, tentei entrar no sistema de diversas formas, tentei seguir a vida em massa junto aos demais jovens.

Ensino Médio e Técnico -> Língua estrangeira -> Cursinho -> Faculdade -> Emprego -> Subir cargos -> Ficar cheia da grana -> Comprar carro e casa -> Constituir família -> Patati patatá.

Confesso que nunca fui a melhor na escola, porém cumpria com sucesso todas as minhas obrigações escolares, sempre procurei me objetivar na vida, não perder tempo com atividades não-construtivas.

Aos 17 só tinha ciência disto: Não suportava meu técnico em ADM, fazia nas coxas mesmo, só para presentear minha mãe com meu diploma.
Não prestaria vestibular algum, pois me sentia muito imatura para escolher minha profissão, eu ainda era muito protegida na família, mal sabia como funcionava o capitalismo selvagem no mundo a fora. Via esta mesma imaturidade nos meus colegas de classe, que não pensavam como eu. Muitos foram pra faculdade direto, fico feliz pois vejo que alguns estão contentes em sua escolha, mas duvido que seja o que acontece com a maioria dos universitários jovens brasileiros.

Bom, foi quando terminei o Ensino Médio e Técnico (2007) que tive oportunidade para vasculhar a arte mesmo. Fiz oficinas de fotografia, artes cênicas, dança do ventre, dança contemporânea, artes circenses.

Ok, para aí, circo. Gamei. Comecei no aéreo, tive a oportunidade de ir à 10ª Convenção Brasileira de Malabares e Circo em Campinas (Outubro - 2008). Achei toda aquela galera ao mesmo tempo que maluca, fascinante.
Neste momento eu já era funcionária pública trabalhando na área de educação. Fui inspetora e organizadora de secretaria escolar. De escola estadual.
Ah como eu queria sair do sistema e me entregar àquele mundo de gente maluca.
Ok lutei contra isso, entrei novamente no sistema. Comecei a estudar Plásticos no Senai Mario Amato, do nada, escolhi por escolher mesmo mesmo. Estudando e trabalhando o dia inteiro sumi do circo, fiquei vazia.
De que vale você ter muito e não ter aquilo que te preenche verdadeiramente?

Em maio de 2009 eu reapareci, fui à 2ª Convenção de Malabares e Circo do ABC.
Ok, nao dava mais pra sair deste mundo. Só que eu aparecia pouco para visitar alguns colegas artistas.

Como não tinha tempo para treinar aéreo, aprendi a jogar três bolas (que sufoco foi pra eu aprender), dava um tempinho tava eu lá nas três bolas de painço.
Ok, mudei de escola, mudei o horário de serviço, com isso conseguia aproveitar a 1 hora e meia final do encontro de malabares de São Bernardo, às terças. Fui à 2ª Convenção Paulista de Malabares e Circo em Ribeirão Pires (setembro/2009), foi lá que começaram as três claves, malemá.
Ganhei três claves velhinhas, quebraram no Intercircu II Etapa Botucatu em setembro de 2009. Nesta época eu já tinha meu acordeon de 24 baixos (foto) Vi o Fernando X edge tocando na convenção do ABC e me apaixonei pelo instrumento.

Ganhei mais três claves velhinhas e por ai foi, até chegar a 11ª Convenção Brasileira de malabares e Circo em piracaia (Outubro - 2009) e logo em seguida a 13ª Convención Argentina de Circo, Payasos y Espectaculos Callejeros em Monte Grande (Novembr0 - 2009) onde comprei meu monociclo e quatro claves K8 ótimas. Nesta época eu já havia abraçado a causa. E de todo o conhecimento que obtive até aí, a Convenção Argentina foi muito influente pois focava muito nos artistas de rua em geral, e ver a valorização que estes artistas recebem foi um puta aprendizado para mim que achava que artista de rua era pedinte.


Ainda assim pensava que eu jamais me submeteria à fazer arte na rua. Hoje penso diferente, porém ainda acho que os artistas precisam se desenvolver de outras formas, o artista é o cara do palco, no momento que ele é artista ele tem o trombone para pôr a boca, só está faltando isto, a iniciação para se passar menssagens à humanidade.

Ok, preciso contar outra parte de minha história. Sempre fui muito apegada a esta matéria mundana, sempre fui muito descrente em diversos aspectos e entendia que nesse mundo só se dá bem quem olha pro próprio umbigo.
Vejo muitos seres humanos com este comportamento e hoje isso me entristece, ao mesmo tempo que me contento por não ter mais esta visão.

A humanidade está perdendo a sensibilidade, as pessoas precisam sentir mais amor aos seus ofícios, serem mais verdadeiros e menos egoístas.

É aí que a minha arte entra, minha arte será minha espada contra os males deste mundo, tenho fé que há de ser, esta fé existe dentro de mim desde o dia em que entendi que tudo posso naquele que me fortalece.

Há pouco exonerei meu cargo, preciso de tempo para me desenvolver. Atualmente estou aprendendo a andar de perna-de-pau e monociclo, continuo treinando claves e voltei a treinar aéreo, isto me deixa muito feliz. Meu técnico em Plásticos eu continuo, pretendo fazer um TCC na área de malabares, quem sabe eu insiro um novo produto no mercado brasileiro para agradar aos nossos malabaristas, ou melhoro o material que já temos. Tenho um colega para isso, Rodrigo Rodrigues.

Escreveria mais mil palavras aqui, mas acho que consegui expor o suficiente para dar início a este blog, o restante eu desenvolvo aos poucos, por posts.

Sejam bem-vindos.

É com gratidão que finalizo este depoimento.
Como o Cristiano (Fone) me diria: Muito amor na caminhada.


ARTE HUMANIZA

Já me disseram que uma andorinha sozinha não faz verão, mas não é por isso que vou virar um urubu né. Até mais.